A DOR DO OUTRO



Meu filho saiu correndo da igreja. Na correria, uma senhora esbarrou nele e ele caiu. Minha mulher se abaixou e perguntou: machucou? Está doendo? Onde dói?

Cena simples, mas me impactou bastante. Explico.

Mesmo muito bem intencionados, muitos de nós não conseguimos suportar a dor do outro. A dor do outro dói tanto em nós que a minimizamos o máximo possível. “Não foi nada”, “nem machucou tanto assim” ou “ah amanhã você não vai nem lembrar”. além do famoso “vai dar tudo certo” que quando dito na hora errada pode piorar tudo. Muitas vezes, dizemos isto de pé àquele que está estirado ao chão. A dor do outro nós fragiliza porque nos remete à nossa finitude para sanar o sofrimento dos que amamos. Então, inventamos essas estratégias.

Ganhamos assim o tom professoral de quem tem a solução de algibeira para a dor alheia. Somos aqueles que temos a experiência de ter superado tantas coisas, ou de sermos aqueles que aprenderam a lição. Que com uma palavra pode resolver tudo.

O que se perde com isso?

O acolhimento. O abraço silencioso. A pergunta sobre “está doendo? Onde?”, que convida muito menos ao palavrório e muito mais à escuta.

E como queremos que escutem a nossa dor! Lá estão cheios os consultórios, as sacristias e modernamente as sessões de “coach de vida”.

A dor do outro nos fragiliza e quando podemos aprender algo com isso, infelizmente desaprendemos. Nossa humanidade, movida de boas intenções, se auto-suficientiza e pouco ouvimos sobre “onde dói”.

Lembrei do slogan autoritário de algumas igrejas: PARE DE SOFRER! Nada mais falso e irreal. Talvez, mais honestamente humano fosse reescrever “pare de sofrer sem sentido”. Mas não vou mais longe porque não quero falar aqui do sentido do sofrimento.

Quero falar da nossa dificuldade de lidar com a dor e o sofrimento do outro.

Esta semana, uma amiga chorou na minha frente. Explodiu em lágrimas. Estava no seu limite. Por frações de segundos avaliei se a abraçava ou se a ajudava a se recompor. Era o local de trabalho.

Lembrei da minha mulher e fiz a oração que tenho mais feito nos últimos tempos: o que a Aline faria nessa hora, Senhor? E comecei a ouvir. Minha mulher é ótima ouvinte.

Lembrei de uma canção do Raul Seixas que eu ouvi há muito tempo, nos meus tempos de adolescente, que dizia:

“O meu egoísmo, é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar”.

Na época, fiquei revoltado. Eu já era cristão. Todo bom cristão se sente no compromisso de ajudar. Mas existe uma vaidade em não suportar a dor do outro, logo em seguida minimizando-a ou relativizando-a. Vemos que Cristo não distribuía senhas nem fazia triagens de sofrimentos a serem curados. Pouco importava se era cegueira, um filho morto, um servo doente, uma adúltera à beira da pena de morte ou uma simples mulher com muitos maridos tirando água de um poço. Toda dor do outro lhe era importante. Aliás, o outro sempre foi o sentido da vida de jesus.

Termino esta partilha com outro momento que vivi quando já tinha 20 e poucos anos. Fui chamado a ir a um hospital visitar os doentes e rezar por eles. Fiquei apavorado. Procurei o padre que já me conhecia muitos anos e lembrei a ele o sujeito inadequado, estupido e insensível que eu era. Ele me deu algumas dicas:

“Sorria com tranquilidade, segure as mãos (se for possível, se não… faça um contato físico discreto), olhe nos olhos e ouça. Não saia por aí se oferecendo para rezar por todo mundo”.
– mas padre esse não sou eu…
– pois é filho… a experiência da dor nos convida a sermos melhor do que nós somos.

Fonte: Catholicus
A DOR DO OUTRO A DOR DO OUTRO Reviewed by Eu e Deus on maio 15, 2019 Rating: 5

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