O OFÍCIO DIVINO DO DIA


A razão deste artigo é apresentar o significado de cada Hora do Ofício Divino rezado por um(a) eremita ou monge/monja de vida claustral rigorosa.

Ofício de Vigílias ou Leituras: pode ser rezado a qualquer hora do dia, mas o eremita mantém seu caráter noturno (antes do raiar do dia), de espera e vigilância. Visa um maior contato com a Palavra de Deus em toda a sua profundidade; por isso, além do texto bíblico próprio para o Ofício de Leituras daquele dia, lê-se também o comentário de um Padre da Igreja ou do Santo do dia.

Laudes (do Latim, Louvores): é rezado logo de manhãzinha e se inspira no renascer da luz do dia após as trevas da noite. Celebra a Ressurreição do Senhor Jesus. Ele é a luz por excelência que ilumina a todos (cf. Jo 1,9) ou o sol da justiça que nasce do alto (cf. Lc 1,78). Daí duas das características desse momento de oração: glorificar a Cristo, o grande vitorioso sobre a morte, conforme se proclama no Cântico de Zacarias retirado de Lucas 1,68-79, e consagrar ao Pai celeste o dia de trabalho e de esperanças que o cristão tem pela frente.


As horas Terça, Sexta e Noa são chamadas de horas menores e visam santificar o dia todo, daí estarem distribuídas ao longo dele. Lembram também importantes passagens bíblicas.

Terça: recorda a vinda do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Apóstolos à terceira hora do dia (para os judeus este começava às 6h), conforme Atos 2,15.

Sexta: meio-dia, é a hora em que Pedro rezava no terraço e teve uma visão segundo a qual deveria batizar o centurião Cornélio sem lhe impor a circuncisão, abrindo, desse modo, as portas da Igreja aos pagãos (cf. At 10,9). É também a hora da agonia de Jesus na cruz (cf. Mt 27,45). O hino que abre essa hora lembra o calor que muitas vezes nos atinge ao meio-dia e pede ao Senhor a extinção do fogo das paixões a arder, em certos momentos, no coração dos homens.

Noa: faz memória da oração de Pedro e João no Templo, ocasião em que Pedro cura, em nome de Jesus, o paralítico que ali pedia esmolas (cf. At 3,1). Recorda também a morte de Nosso Senhor na Cruz às 15h (cf. Mt 27,45).

Vésperas (nome originário de Véspero ou Vênus, astro luminoso que começa a brilhar assim que caem as trevas noturnas): é uma oração que conclui o dia e inicia a noite. Dá graças a Deus pelos benefícios recebidos naquele dia e comemora a Ceia do Senhor e sua morte na Cruz, ocorrências que se deram em tempo vespertino. O Ofício de Vésperas ainda relembra aos fiéis que o Senhor Jesus voltará, no arremate ou no final da história deste mundo, para julgar os vivos e os mortos, trazendo-nos a luz sem ocaso que é Ele mesmo (cf. Jo 8,12).

Cientes disso, os cristãos acorrem para as Vésperas como os operários da vinha, que é a Igreja, a fim de receberem de Deus o pagamento pelo trabalho realizado com Ele e por Ele ao longo do dia transcorrido (cf. Mt 20,1-16) ou ainda para – à moda dos discípulos de Emaús – rogar: “Fica conosco, Senhor” (Lc 24,29).

Completas: segundo o próprio nome, é a última oração do dia. Tem como lembrança, de acordo com a tradição de povos antigos, a comparação do sono noturno com o “sono” da morte. Consciente disso, o fiel se entrega e se abandona, por meio dos salmos recitados, nas mãos do Senhor antes de se confiar ao merecido repouso. Isso bem se exprime no cântico que o velho Simeão cantou no fim de sua vida e o cristão entoa ao final das Completas conforme Lc 2,29-32.

Recorda ainda a gratidão por termos passado mais um dia na misericórdia do Senhor e exorta-nos a uma atitude penitencial de examinarmos a nossa consciência a fim de que, apesar das nossas limitações, façamos esforço para nos vermos – em nossas misérias e virtudes – do mesmo modo como Deus nos vê. Por isso, se pede perdão dos pecados cometidos naquele dia a fim de que, purificados, nos preparemos para, depois do sono da noite, servir, novamente, no campo do Senhor ao raiar do novo dia.

Vanderlei de Lima é eremita na Diocese de Amparo
O OFÍCIO DIVINO DO DIA  O OFÍCIO DIVINO DO DIA Reviewed by Eu e Deus on dezembro 08, 2017 Rating: 5